O regresso da literatura de viagens
A escrita de viagens contemporânea, tal como Bruce Chatwin a redefiniu, é um acto de busca do conhecimento e de expansão do mundo conhecido.A escrita de viagens contemporânea, tal como Bruce Chatwin a redefiniu, é um acto de busca do conhecimento e de expansão do mundo conhecido
Mais do que uma inevitabilidade, viajar tornou-se uma condição do homem contemporâneo. Pelo menos até que a produção de C02 lançada na atmosfera pelos aviões chegue ao limite do possível ou os gastos das estadias decorrentes das viagens se tornem incomportáveis, viajar vai ser uma constante do homem do século XXI. Viaja-se por negócios, por lazer, para interromper rotinas, por curiosidade, viaja-se porque aparentemente as distâncias se encurtaram, tantas são as informações sobre a facilidade e a proximidade dos lugares que a viagem possibilita. Dir-se-ia, pois, que para uma grande maioria dos cidadãos europeus, norte-americanos, sul-americanos e de muitos países asiáticos, viajar é ou inevitável ou possível. E nunca se publicaram tantos livros e tantos suplementos, nunca se organizaram tantos colóquios e workshops sobre viagens. Há livrarias e revistas académicas especializadas, departamentos universitários dedicados ao tema, blogues; publicam-se muitos livros e cadernos de viagens novos, reeditam-se outros mais antigos e os clássicos.
Bruce Chatwin (1940-1989) foi o iniciador da literatura de viagens contemporânea com a publicação das obras Na Patagónia (1977), O Vicerei de Ajudá (1980), Os Gémeos de Blackhill (1982), O Canto Nómada (1987), Utz(1988), Que Faço Eu Aqui (1988). Ficaram célebres os cadernos Moleskine em que escrevia; contudo, o que esta ferramenta significava tinha a ver com o método, a disciplina de escrita, o processo continuado do registo. As narrativas de viagens enquanto tal exigem trabalho, investigação, paciência, até uma certa dose de abnegação.
A intenção do relato precede a viagem ou é consequência desta? As duas situações implícitas na pergunta são comuns. Para um escritor que se torna profissional da literatura de viagens, como Jan Morris, Paul Theroux ou Nicolas Bouvier, há uma precedência da escrita sobre a viagem, sendo esta escolhida e realizada em função do projecto de escrita. Para autores que cultivam a escrita diária ou para quem ousou relatar uma viagem depois de a ter iniciado, a escrita resulta do curso da própria viagem, quantas vezes das vicissitudes ou do encantamento que ela produziu: é o caso de Alberto Moravia em Passeggiate Africane, por exemplo.
Depois, há ainda os escritores de guias turísticos e seus sucedâneos, embora esse seja um outro universo marcado essencialmente pelo registo dos melhores lugares a visitar numa determinada estação do ano, dos novos hotéis, resorts e restaurantes, dos passeios e caminhadas turísticas. Esta prática está muito próxima da do jornalismo gastronómico ou dos produtores de moda: pouco fica da experiência pessoal neste relatos; pelo contrário, há até que evitá-la e oferecer descrições que possam ser do agrado da generalidade dos leitores, porque o sucesso dessa escrita, bem como dos lugares que ela recomenda, mede-se pela quantidade de turistas. Aqui, o que se faz é dar continuidade aos hábitos dos cidadãos de hoje, que gostam ou podem organizar umas férias.
Literatura de viagens é outra coisa, é a exaltação do nomadismo. Chatwin escreveu a este propósito: "Aqueles de nós que se atrevem a escrever livros agrupam-se aparentemente em duas categorias: os que "esgaravatam" e os que avançam. Há escritores que só conseguem funcionar "em casa", com a cadeira certa, as estantes de dicionários e enciclopédias e talvez agora o processador de texto. E há aqueles, como eu, a quem "a casa" paralisa, para quem "a casa" é sinónima do proverbial bloqueio do escritor e que acreditam ingenuamente que tudo sairia bem se estivessem muito simplesmente noutro sítio qualquer." (Anatomia da Errância, obra póstuma).
Chatwin está do lado daqueles a que chama escritores "itinerantes", como Melville, Hemingway, Gógol ou Dostoiévski, escritores de vidas em viagens, hotéis, comboios, carruagens. E é curioso pensar o que levará então a que hoje haja tantos herdeiros de Chatwin, tantos interessados nesse género literário. Primeiro, o romantismo: o escritor que se sente como um último aventureiro num mundo onde tudo é conhecido, seguro, previsível, um Corto Maltese viajando pelos lados mais escuros das cidades, desesperado por encontrar os lugares mais boémios, mais taciturnos, as personagens que sonham, também elas, ser heróis de um tempo maior que já não existe. Depois, outras razões: suspender a actualidade, essa vertigem de notícias, de programas, de compromissos diários, familiares, profissionais, e partir para lugares onde a actualidade decorra lentamente ou, pelo menos, a outra velocidade. Não será por acaso que os escritores de viagens as fazem preferencialmente de comboio, de carro, de transportes locais colectivos, simulando por momentos que não só vivem outro tempo como o vivem noutra comunidade.
Claro que há outras dimensões mais afirmativas nestes escritores: ficar longe deve querer dizer também descentrar-se, e descentrar os leitores futuros, no que é um acto de busca de conhecimento. Escrever sobre viagens é construir outras cartografias possíveis, onde a dimensão da sensibilidade e das sensações se combina com outros mapas e rotas que escapam à bidimensionalidade do Google Maps.
Finalmente, o mais importante neste trabalho da energia da escrita é a própria literatura. Antes de ser escrita de viagem é literatura, e o facto de o ser expande o mundo.
https://www.publico.pt/2013/02/15/jornal/o-regresso-da-literatura-de-viagens-26047510
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